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SANTA ANASTÁCIA

Atualizado: 12 de mar.

“A jovem negra de cabelos curtos, dentes muito brancos, lábios sensuais, olhos azuis penetrantes, onde se notava sempre uma lágrima a rolar silenciosa, com uma mordaça de ferro e aço (flandres) para que ninguém mais apreciasse a sua beleza ou saciasse a sua fome e também a gargantilha de ferro dos negros fujões"


Descrita como uma das mais importantes figuras femininas da história negra, há relatos de que o nascimento de Anastácia ocorreu no dia 12 de maio, data a qual atualmente é consagrada a ela, sendo celebrada tanto nas igrejas do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos, quanto nos centros espíritas e terreiros.


Sua história é contada sob várias óticas e versões, e como muitas das figuras de heroínas negras, conta com o ar de dúvida com relação a sua existência.




Para aqueles que tentam registrar suas características, há tanto adjetivos que tentam descrever sua beleza, quanto outros que tentam qualificar precisamente as barbáries enfrentadas por esta mulher que, até onde se sabe, era membro da família real Galanga.


A narrativa mais detalhada conta que era Delminda, mãe de Anastácia, a negra formosa, da tribo bantu, que chegou ao Brasil em 1740 no navio negreiro “Madalena”, que aportou no Rio de Janeiro, com um carregamento de 112 africanos. Delminda foi violentada e vendida grávida para Joaquina Pompeu, indo viver em Minas Gerais.


Desse ato criminoso nasceu Anastácia, de beleza ímpar, que ao crescer tornou-se objeto de adoração do sinhozinho Joaquim Antônio. A partir desse ponto da história, diversas facetas tomam forma para tentar moldar a estrutura da narrativa da bela negra que passou a viver amordaçada e com um colar de ferro para o resto da vida.


Fosse por se negar a ceder aos assédios de seu senhor (dizem alguns), ou para que não mais pudesse falar contra a escravidão, dado seu dom para oratória e inteligência (explicam outros), talvez por “roubar” um torrão de açúcar, quando trabalhava na lavoura, ou simplesmente deseja-lo... Diferentes motivos pontuados, porém o mesmo desfecho para o enredo da história: Anastácia foi sentenciada a usar mordaça de ferro acompanhada de uma gargantilha de ferro por toda a vida, somente retiradas durante as refeições. Fato esse que ainda segundo alguns, foi visto com alegria e satisfação por sinhás brancas que invejavam a beleza de Anastácia, e temiam que seus esposos se apaixonassem pela bela escrava.


Faço uma pausa na biografia dessa mulher, para apresentar uma crítica às tantas facetas dessa história.


A crueldade com o povo preto desafia o conceito de humanidade. Aos que de fato se interessam pela história negra, em uma básica busca na literatura encontrará relatos tão ou mais bárbaros que o de Anastácia. Não intenciono, com isso, menosprezar a história desta heroína. O que pretendo é justamente esclarecer o fato de que, independente se Anastácia foi real ou não, bem como independente das razões por ter sido amordaçada, o que podemos tomar como certo é que negros e negras não eram vistos como seres humanos. Seres que nem sequer alma possuíam.


Voltando o olhar especificamente para as mulheres negras, além da condição de escravas no trabalho, eram ainda escravas sexuais. Não somente pelo abuso direto por meio dos estupros e contastes assédios por parte do homem branco, mas também pela erotização e sexualização orquestrada por mulheres brancas, que as enxergavam como “perigo” a seus primorosos matrimônios.


O que fazer então? O que fazer para que tais criaturas que deveriam servir, mas que eram selvagens a ponto de seduzir homens de boa índole, fossem controladas? A resposta: castigá-las, espanca-las, amordaçá-las, silenciá-las, mata-las.


Anastácia, real ou folclórica, emerge desse cenário, como símbolo de uma mulher negra que se recusava a se calar, se entregar, se deixar escravizar. Poderiam colocar-lhe uma mordaça e trata-la de maneira inferior ao que se trata um animal. Mas seu espirito jamais poderia lhe ser usurpado. Sua beleza lhe pertencia, assim como sua liberdade.


Como tantas outras personalidades negras, que da mesma forma são alvos de chacota por alguns, dúvida para outros, e inspiração para diversos, Anastácia representa tudo que nosso povo negro vem tentando arduamente escancarar: fomos e ainda somos desrespeitados, maltratados, silenciados e malditos. Mas nosso espirito segue forte doa a quem doer, e jamais terão a essência de nosso ser.


Enquanto mulheres negras, sim somos belas. Mas essa beleza em nada representa perigo aos casamentos instituídos sem confiança e verdade. Até porque nossa beleza não está à venda ou à mercê do simples desejo de um homem, branco ou negro. Somos rainhas, fortes, destemidas, que encantam todos os sentidos de qualquer pessoa que nosso caminho cruze. Podem nos condenar por não estarem acostumados a tamanha grandeza. Mas nossa magnitude em nada diminui por conta da mediocridade de certos seres que se dizem humanos.


Anastácia é venerada como santa e heroína em várias regiões do Brasil. Com tamanha história de luta acabou se tornando um símbolo de resistência contra o sistema escravocrata. Algumas religiões a consideram santa, sob alegação de ter realizado alguns milagres. Segundo as histórias, ela conseguia tirar os males dos adoentados usando apenas as mãos e também salvou a vida do filho do fazendeiro que a violentou. Porém, a canonização formal nunca aconteceu.


Mas sua história segue como inspiração de força, perseverança, luta e, por que não, beleza. Beleza que o povo negro tem! Não somente física, mas espiritual e culturalmente. Esse é um fato do qual não se pode duvidar.





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